Derivado de uma noite com dificuldades para se ter sono e em um ar meio doido de imaginação, aqui vamos com uma crônica bastante, bastante, bastante louca. Pus como crônica por ter algumas opiniões e uns relatos, mas eu me pergunto se não consideraria como conto pelo final. E acho engraçado que agora tenho uma opinião que se altera vagamente do que disse/digitei nessa madrugada, mas para quem se interessar:
NOITE
ÁVIDA
Insônia. Já passei por
várias vezes experiências desse tipo.
Quando bem criança,
lembro ter medo do escuro, por achar que “um bicho feio vai querer me levar
quando eu dormir”, então a minha solução era caber no meio de papai e de mamãe
para assim adormecer. Ficava umas horas de olho aberto. Recordo que imaginava,
ou talvez não imaginasse e nunca soube, umas linhas coloridas cortando a
obscuridade. Pensando agora, talvez estes fossem sons invisíveis ao nosso
consciente, como ouvi falar que vemos cores nos sons e essa habilidade se perde
em boa parte de nós ao crescermos. Mas provavelmente aquelas linhas pudessem
ser fantasmas.
Sabe, luzes mandando um
“buu”. Sem luvas com navalhas, sem gente sem cabeça.
Já nesse meu período
agora, adolescência, permaneci dias alternados com esse costume noturno. Sou
uma garota que vive de internet, afinal, como várias pessoas em nosso século
XXI. Minha rotina, em uma grande base dos meses, é começar a ler alguns mangás
para me ver sugada em um mundo irreal onde minha cabeça possa voar como penas
de travesseiro de desenho animado. Então, caso sentir vontade o suficiente e
pisar psicologicamente o monstrinho da preguiça, também uns animes. Também vou
para o campo do facebook para bater papo com meus amigos, compartilhar coisas
pra umas duas páginas, falar aleatoriamente no meu status e também morgar. Sem
falar no tumblr, no twitter e até, desafiando um monte de vocês porquê sou uma
menininha rebelde, o Orkut. E nos tempos restantes, só escrevo ou leio
fanfictions ou skype.
Mas estou sentindo, aos
dezoito anos, as coisas mais pesadas.
Agora, por exemplo, é
meia noite e vinte e oito. Não consegui dormir, tenho uma luz acesa na minha
escravinha e já tentei pôr um som baixo para acalmar meus nervos. Não sei se
meu erro foi pular o almoço e o jantar hoje, comendo cerca de uns 4 lanches
para me fartar, ou se foi o café. Não sei se posso culpar o que ando fazendo
agora em Novembro, o Nanowrimo, mas acho que nem é por aí também. A única coisa
que sei é que estou desde segunda-feira sem dormir no horário certo. Noite. De
noite, sou um zumbi, uma espécie de pessoa com olhar cansado que se arrasta do
quarto para a cozinha, do quarto para o banheiro. E minha cabeça está uma
bagunça de divagações.
Eu comecei tentando me
deitar. Mas não posso dormir sem uma luz ligada. Daí, vocês podem se relembrar
do que eu disse de minha infância, da escuridão: embora eu tenha medo por
outros motivos, motivos chamados creepypastas e também slenderséries. Há ainda
minha crença forte sobre coisas relacionadas a espíritos, então você já sabe,
se considerar o aspecto de eu ser uma espécie de gato assustado. Senti fome,
embora tivesse comido muito. Tentei dispersar a sensação, revirando-me na cama,
pondo a cara no travesseiro, resmungando baixo e com minha imaginação selvagem
tentando preencher o silêncio que se fazia no meu quarto. Não resolveu. Tive
que apelar pra tocar uma música. Alguma música de um jogo que gosto bastante,
The World Ends With You. Uma música, ao menos na minha percepção, alegre.
Toquei baixo no meu computador e voltei na minha cama. Acomodei a minha nuca no
apoio macio que tenho, o travesseiro na minha cara e tentei dormir. Não deu
certo. Tentei mudar a música para a abertura de um anime que gosto, No.6. Não
deu certo. Tentei mudar para uma canção da Lady GaGa, Applause. Também não deu.
Frustrada, fui à cozinha pra procurar o que comer. Imaginei que, se enchesse
minha barriga mais um pouco, meu corpo não teria o que reclamar. Comi um pouco
de duas bananas, tentei investigar o refrigerador e a geladeira (ambos sem nada
pra eu comer ou tomar), e me vi forçada a voltar ao quarto.
Tentei ficar sem a
música. Liguei a luz de agora, a da escravinha. Forte luz em comparação com a
mínima do computador da minha tentativa de antes, eu direcionei essa pra a
parede. Tentei dormir de novo. Não consegui. Eu me revirei na cama. Tentei
dormir. Tentei me forçar mais a dormir. Sem sucesso. Tive que voltar à cozinha,
então me ergui. Mas antes de ir para o outro lugar, eu encarei minhas persianas
e me aproximei. Ali, pude ter a visão da Vila Olímpica. Escura com algumas
luzes, tentei ver se, a aquela hora da madrugada, tinha alguém lá dentro. Não
ligava se estava já maluca pela falta de sono, pelo meu desespero silencioso ou
pela minha agonia que parecia me roer por dentro, mas acho que, naquele
momento, eu, sem pensar muito (ou talvez aquilo fosse meu instinto, só), queria
algo pra me distrair. De sono, de fome, de tudo. Queria um susto. Queria ficar
assustada, ainda que eu seja sensível. Eu não vi nenhum homem ou pessoa, talvez
só um cachorro. Ainda assim, imaginei que ali tinha um homem. Um homem
escondido, um homem obscuro, um homem esperando. Um homem que não era um homem,
que não era uma mulher, que nem era humano. Ele tinha os olhos abertos e ao
mesmo tempo tinha nenhum olho, mas poderia me ver, com clareza, mesmo a uma
certa distância de corpo. Ele poderia sorrir, um sorriso bem rasgado, um
sorriso bem torto, um sorriso de gula e ávido por medo de crianças.
Diz-se que, se você
imaginar que alguma coisa existe e pensar nisso muito, ela acaba nascendo na
nossa realidade. Chamam isso de Efeito Tulpa. Algo que vem de nosso poder. O
poder da mente sob a matéria. E, mesmo sem reconhecer porquê imaginava aquilo
naquela hora, uma sensação pareceu passar para mim de que, ainda que soubesse
que aquele homem sorridente era da minha cabeça, ele era real. E que não tinha
como provar nisso, talvez nem com o Efeito Tulpa, mas que ele era com certeza
real.
A noite é uma criança,
dizem. E crianças são gulosas, em boa parte das vezes, em experimentar. Em
causar impressões. Em imitar. Em rir, em chorar e em viver. Mas no final de
tudo isso, de toda essa vitalidade, sempre encontramos nosso finito. E, no
canto do olho, podemos ter a sensação de que estamos sendo vigiados por alguma
coisa. Desde que éramos crianças. O sistema, uma simulação de sociedade que se
diz civil, faz com que crescermos fingindo não acreditar. Fingindo, pois quando
estamos perto do último momento, viramos o olho e sentimos o homem do sorriso
com os olhos abertos. Só esperando. Só esperando que a gente acabe. Só
esperando outra pessoa. Só esperando, enquanto você não acaba, ver seu
desespero. E só então, ele revela sua verdadeira boca. E você é devorado, seus
sentimentos são devorados e a simulação que vivemos não poderá nos salvar.
Carnaval de sangue, carnaval de tripas, carnaval de lágrimas, carnaval de
gritos, carnaval de risadas e cores, muitas cores, ao seu redor.
Ao menos, essa foi a
ideia que eu tive na cabeça ao ir à cozinha para pegar as últimas bananas e
voltar. Voltar, esquecendo do homem sorridente por um tempo, pensando que o bem
e o mal não existem. É uma dupla que foi só convencionada junto com o conceito
de sociedade. Que não conhecemos a verdade da nossa natureza e isto continuará
um mistério, pois o cosmo, aquilo que você vê aqui e aquilo que você viu do
espaço, é silencioso. Silencioso como o homem sorridente, quem pode ser o que você
imaginar que ele seja, quem pode causar o que você imaginar que ele cause e
quem pode existir mesmo que você seja levado a pensar que é uma mentira. Agora,
nesta pequena reflexão sombria minha, penso também se ele não fez uma visita
aos condenados. Aos segregados, aos suicidas, aos criminosos, às vitimas, aos
aflitos, aos religiosos, aos ateus, aos estudantes, aos pais... Se algum
desses, ao invés de desespero, abraçou o homem sorridente. Um homem que talvez
não abrace de volta, mas está lá, está em você, está em todos os lugares e não
há nada que você pode fazer para retirar o sorriso. Mas que o abraço talvez o
faça mudar um detalhe. Que talvez isso seja o objetivo.
Algo me diz que,
talvez, apenas talvez, seja isso.
Mas também isso também
me diz que nunca saibamos o que é o homem sorridente.
Só que acho que tenho
uma teoria. Talvez tímida, talvez boba, mas ainda assim uma teoria de que a
noite tem um pacto com ele. De que a noite, uma criança precisando de
movimento, precise de uma força. Não sei se o homem sorridente é seu pai ou seu
irmão ou seu filho. Só sei que ela o esconde muito bem (ou seria que ele se
esconde bem nela?). E que, no tempo da noite, como o dia é livre demais, eles
lançam sugestões nos ouvidos daqueles que dormem. Sonhos, pensamentos,
memórias. Que eles podem distorcer uma pessoa, enquanto a simulação, talvez a
maior invenção humana, a faz pensar em uma explicação diferente que a encaminhe
sempre de costas para ambos.
Até me pergunto se eu
não estou acordada às uma e doze da manhã por causa disso.
Se não há uma espécie
de semente. Uma semente em minha mente. Uma semente plantada por alguém. E que
vá ser colhidas pelas mesmas mãos. Mãos que não tem tempo. Mãos de uma
entidade, as mãos do homem sorridente...
... as mãos do responsável
pela colheita dos sonhos e do medo da humanidade.
As que pegarão e distribuirão
para a noite que sempre quer mais, a noite ávida.
Talvez um dia teremos
as consequências.
FIM
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