quarta-feira, novembro 06, 2013

Noite Ávida


Derivado de uma noite com dificuldades para se ter sono e em um ar meio doido de imaginação, aqui vamos com uma crônica bastante, bastante, bastante louca. Pus como crônica por ter algumas opiniões e uns relatos, mas eu me pergunto se não consideraria como conto pelo final. E acho engraçado que agora tenho uma opinião que se altera vagamente do que disse/digitei nessa madrugada, mas para quem se interessar:

NOITE ÁVIDA
Insônia. Já passei por várias vezes experiências desse tipo.
Quando bem criança, lembro ter medo do escuro, por achar que “um bicho feio vai querer me levar quando eu dormir”, então a minha solução era caber no meio de papai e de mamãe para assim adormecer. Ficava umas horas de olho aberto. Recordo que imaginava, ou talvez não imaginasse e nunca soube, umas linhas coloridas cortando a obscuridade. Pensando agora, talvez estes fossem sons invisíveis ao nosso consciente, como ouvi falar que vemos cores nos sons e essa habilidade se perde em boa parte de nós ao crescermos. Mas provavelmente aquelas linhas pudessem ser fantasmas.
Sabe, luzes mandando um “buu”. Sem luvas com navalhas, sem gente sem cabeça.
Já nesse meu período agora, adolescência, permaneci dias alternados com esse costume noturno. Sou uma garota que vive de internet, afinal, como várias pessoas em nosso século XXI. Minha rotina, em uma grande base dos meses, é começar a ler alguns mangás para me ver sugada em um mundo irreal onde minha cabeça possa voar como penas de travesseiro de desenho animado. Então, caso sentir vontade o suficiente e pisar psicologicamente o monstrinho da preguiça, também uns animes. Também vou para o campo do facebook para bater papo com meus amigos, compartilhar coisas pra umas duas páginas, falar aleatoriamente no meu status e também morgar. Sem falar no tumblr, no twitter e até, desafiando um monte de vocês porquê sou uma menininha rebelde, o Orkut. E nos tempos restantes, só escrevo ou leio fanfictions ou skype.
Mas estou sentindo, aos dezoito anos, as coisas mais pesadas.
Agora, por exemplo, é meia noite e vinte e oito. Não consegui dormir, tenho uma luz acesa na minha escravinha e já tentei pôr um som baixo para acalmar meus nervos. Não sei se meu erro foi pular o almoço e o jantar hoje, comendo cerca de uns 4 lanches para me fartar, ou se foi o café. Não sei se posso culpar o que ando fazendo agora em Novembro, o Nanowrimo, mas acho que nem é por aí também. A única coisa que sei é que estou desde segunda-feira sem dormir no horário certo. Noite. De noite, sou um zumbi, uma espécie de pessoa com olhar cansado que se arrasta do quarto para a cozinha, do quarto para o banheiro. E minha cabeça está uma bagunça de divagações.
Eu comecei tentando me deitar. Mas não posso dormir sem uma luz ligada. Daí, vocês podem se relembrar do que eu disse de minha infância, da escuridão: embora eu tenha medo por outros motivos, motivos chamados creepypastas e também slenderséries. Há ainda minha crença forte sobre coisas relacionadas a espíritos, então você já sabe, se considerar o aspecto de eu ser uma espécie de gato assustado. Senti fome, embora tivesse comido muito. Tentei dispersar a sensação, revirando-me na cama, pondo a cara no travesseiro, resmungando baixo e com minha imaginação selvagem tentando preencher o silêncio que se fazia no meu quarto. Não resolveu. Tive que apelar pra tocar uma música. Alguma música de um jogo que gosto bastante, The World Ends With You. Uma música, ao menos na minha percepção, alegre. Toquei baixo no meu computador e voltei na minha cama. Acomodei a minha nuca no apoio macio que tenho, o travesseiro na minha cara e tentei dormir. Não deu certo. Tentei mudar a música para a abertura de um anime que gosto, No.6. Não deu certo. Tentei mudar para uma canção da Lady GaGa, Applause. Também não deu. Frustrada, fui à cozinha pra procurar o que comer. Imaginei que, se enchesse minha barriga mais um pouco, meu corpo não teria o que reclamar. Comi um pouco de duas bananas, tentei investigar o refrigerador e a geladeira (ambos sem nada pra eu comer ou tomar), e me vi forçada a voltar ao quarto.
Tentei ficar sem a música. Liguei a luz de agora, a da escravinha. Forte luz em comparação com a mínima do computador da minha tentativa de antes, eu direcionei essa pra a parede. Tentei dormir de novo. Não consegui. Eu me revirei na cama. Tentei dormir. Tentei me forçar mais a dormir. Sem sucesso. Tive que voltar à cozinha, então me ergui. Mas antes de ir para o outro lugar, eu encarei minhas persianas e me aproximei. Ali, pude ter a visão da Vila Olímpica. Escura com algumas luzes, tentei ver se, a aquela hora da madrugada, tinha alguém lá dentro. Não ligava se estava já maluca pela falta de sono, pelo meu desespero silencioso ou pela minha agonia que parecia me roer por dentro, mas acho que, naquele momento, eu, sem pensar muito (ou talvez aquilo fosse meu instinto, só), queria algo pra me distrair. De sono, de fome, de tudo. Queria um susto. Queria ficar assustada, ainda que eu seja sensível. Eu não vi nenhum homem ou pessoa, talvez só um cachorro. Ainda assim, imaginei que ali tinha um homem. Um homem escondido, um homem obscuro, um homem esperando. Um homem que não era um homem, que não era uma mulher, que nem era humano. Ele tinha os olhos abertos e ao mesmo tempo tinha nenhum olho, mas poderia me ver, com clareza, mesmo a uma certa distância de corpo. Ele poderia sorrir, um sorriso bem rasgado, um sorriso bem torto, um sorriso de gula e ávido por medo de crianças.
Diz-se que, se você imaginar que alguma coisa existe e pensar nisso muito, ela acaba nascendo na nossa realidade. Chamam isso de Efeito Tulpa. Algo que vem de nosso poder. O poder da mente sob a matéria. E, mesmo sem reconhecer porquê imaginava aquilo naquela hora, uma sensação pareceu passar para mim de que, ainda que soubesse que aquele homem sorridente era da minha cabeça, ele era real. E que não tinha como provar nisso, talvez nem com o Efeito Tulpa, mas que ele era com certeza real.
A noite é uma criança, dizem. E crianças são gulosas, em boa parte das vezes, em experimentar. Em causar impressões. Em imitar. Em rir, em chorar e em viver. Mas no final de tudo isso, de toda essa vitalidade, sempre encontramos nosso finito. E, no canto do olho, podemos ter a sensação de que estamos sendo vigiados por alguma coisa. Desde que éramos crianças. O sistema, uma simulação de sociedade que se diz civil, faz com que crescermos fingindo não acreditar. Fingindo, pois quando estamos perto do último momento, viramos o olho e sentimos o homem do sorriso com os olhos abertos. Só esperando. Só esperando que a gente acabe. Só esperando outra pessoa. Só esperando, enquanto você não acaba, ver seu desespero. E só então, ele revela sua verdadeira boca. E você é devorado, seus sentimentos são devorados e a simulação que vivemos não poderá nos salvar. Carnaval de sangue, carnaval de tripas, carnaval de lágrimas, carnaval de gritos, carnaval de risadas e cores, muitas cores, ao seu redor.
Ao menos, essa foi a ideia que eu tive na cabeça ao ir à cozinha para pegar as últimas bananas e voltar. Voltar, esquecendo do homem sorridente por um tempo, pensando que o bem e o mal não existem. É uma dupla que foi só convencionada junto com o conceito de sociedade. Que não conhecemos a verdade da nossa natureza e isto continuará um mistério, pois o cosmo, aquilo que você vê aqui e aquilo que você viu do espaço, é silencioso. Silencioso como o homem sorridente, quem pode ser o que você imaginar que ele seja, quem pode causar o que você imaginar que ele cause e quem pode existir mesmo que você seja levado a pensar que é uma mentira. Agora, nesta pequena reflexão sombria minha, penso também se ele não fez uma visita aos condenados. Aos segregados, aos suicidas, aos criminosos, às vitimas, aos aflitos, aos religiosos, aos ateus, aos estudantes, aos pais... Se algum desses, ao invés de desespero, abraçou o homem sorridente. Um homem que talvez não abrace de volta, mas está lá, está em você, está em todos os lugares e não há nada que você pode fazer para retirar o sorriso. Mas que o abraço talvez o faça mudar um detalhe. Que talvez isso seja o objetivo.
Algo me diz que, talvez, apenas talvez, seja isso.
Mas também isso também me diz que nunca saibamos o que é o homem sorridente.
Só que acho que tenho uma teoria. Talvez tímida, talvez boba, mas ainda assim uma teoria de que a noite tem um pacto com ele. De que a noite, uma criança precisando de movimento, precise de uma força. Não sei se o homem sorridente é seu pai ou seu irmão ou seu filho. Só sei que ela o esconde muito bem (ou seria que ele se esconde bem nela?). E que, no tempo da noite, como o dia é livre demais, eles lançam sugestões nos ouvidos daqueles que dormem. Sonhos, pensamentos, memórias. Que eles podem distorcer uma pessoa, enquanto a simulação, talvez a maior invenção humana, a faz pensar em uma explicação diferente que a encaminhe sempre de costas para ambos.
Até me pergunto se eu não estou acordada às uma e doze da manhã por causa disso.
Se não há uma espécie de semente. Uma semente em minha mente. Uma semente plantada por alguém. E que vá ser colhidas pelas mesmas mãos. Mãos que não tem tempo. Mãos de uma entidade, as mãos do homem sorridente...
... as mãos do responsável pela colheita dos sonhos e do medo da humanidade.
As que pegarão e distribuirão para a noite que sempre quer mais, a noite ávida.
Talvez um dia teremos as consequências.
FIM

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