quarta-feira, maio 29, 2013

Bernardo e Kevin

observações: só tomem cuidado que esse conto tem umas insinuações de cenas indicadas pra maiores de 17 anos, ok?

― Ah, ― ouço Kevin fechar os olhos para não gargalhar, embora o sorriso alegre se pendure no rosto. ― cala essa boca, diabos. Sabe o quanto doí rir?!
   Sei que sou o rapaz de dezoito anos mais feliz do Brasil nesta sexta-feira de junho, ás duas da tarde e com frio. Não é por que o Dia dos Namorados é daqui a cinco dias ou por eu ganhar uns pacotes de bombons de algumas meninas do condomínio onde moro, mas sim por Kevin... estar bem.
― Não pensei nisso, foi mal. ― sorrio, sentado em uma poltrona azul ao lado do leito de hospital, acariciando a mão dele por debaixo do cobertor quente. ― Só estou feliz que não tenha se tornado algo mais sério. Foi bom os médicos terem cuidado bem de suas costelas. Você ficou aí por dois meses. ― espio o soro pendurado por um gancho de um cabo de metal.

   Isso é um progresso: semanas atrás, ele se achava direto com a máscara de inalação para aspirar a alguns remédios. Por conta das pancadas que este cara recebeu, quase comprometeu seus pulmões; pior, poderia ter acabado com seu coração. E tudo isso é culpa do pavio curto dele. Se bem que Kevin tem um enorme histórico em hospitais, a ponto de algumas enfermeiras locais saberem o nome dele de cor só vendo o rosto. Não sei se isso é bom ou não.
   Nós dois somos amigos desde o maternal. Desde lá, ele já brigava com os outros meninos e acabava se ferindo várias vezes. Quanto a mim, mantive-me fora de encrencas por ser uma pessoa que raramente perdia a paciência. Pelas confusões metidas pelo pai incontrolavelmente alcoólatra e a mãe quase ausente, meus pais não se importavam que meu amigo ficasse em casa por semanas. Até posso dizer que este carinha passou a vida mais na minha residência do que exatamente na dele.
   Em um belo dia, minha prima carioca – quem virou a novidade entre as crianças do condomínio – passou uns dias conosco. Como Kevin se comportava agitado com meninas, acabava a flertando até demais. Então, vendo minha situação como namorado dele, você pode dizer “Você sentiu ciúmes?”. Naquela época, não imaginei que nossa relação fosse ir longe como agora. Tinha treze anos e o considerava meu irmão, mas realmente acreditava que ele deveria levar as coisas não como uma brincadeira para depois reclamar de Deus e o mundo quando suas namoradas acabavam o namoro.
   Havia outro ponto: eu sabia bem qual tipo de pessoa ela era e se pode dizer sobre os dois navegarem pelo mesmo pensamento de curtir a vida sem compromissos. Ainda ciente disso, não evitei meu lado superprotetor de parente quando Sophia olhou Kevin e comentou sugestivamente “Queria um pouco de romance nessa cidade. Tudo parece tão normal demais”.
   Para variar, ele sorriu e respondeu “Se você desejar, gata, a gente pode experimentar cem maneiras diferentes de ir ao paraíso”.
   Nem precisei pensar duas vezes para olhar feio – “Eles sabem que eu ainda ‘tô’ aqui, sabem?” – os dois e sentenciar sério “Só sob meu cadáver”. Fora isso, era noite. Não queria dormir sabendo que os dois estavam dando o bote. Desejava ter meu merecido sono sem preocupações me atormentando.
   “Qual é, Bernardo”, ele retrucou, “Sei que ela é sua prima, mas não mordo não... Só vamos dar umas bitocas” e Kevin passou o braço pelas costas dela.
   “Por isso mesmo que quero vocês dois a um metro de distância do outro”, cansado, cruzei meus braços observando Sophia me lançar um misto de tédio e diversão, “Temos que dormir e não quero passar a noite acordado por culpa de vocês”, massageei meu rosto quando tive que fazer um ruído preguiçoso.
   “Se você se incomoda tanto”, ele rolou os olhos, irritado. “vai dormir. Não é como eu vá me apaixonar por ela ou que estejamos nos machucando. Só quero beijar alguém legal” e espiou indiscreto minha prima, com animação.  Ela pareceu concordar, pois se aninhou no ombro dele e falou “E eu só quero um romance quente que possa me divertir nesta cidade”.
    Aquilo me irritava. Só queria algo acabando com o clima enjoativo para me trazer paz. Achava-me tão exausto e eles ainda queriam aquelas coisas que... Aquilo subiu minha cabeça e conclui, não fazendo nem lógica pra mim mesmo: “Então você só quer beijar e você só quer romance... É isso?”. Kevin me fitou como isso não fosse já muito óbvio. “Preciso dizer que sim?”, ele me disse irônico. Bastou para que, com isso e mais um minuto de devaneios, uma ideia brilhasse louca. Acabei o puxando para perto de mim. “O que significa isso?”, atônito, o cara me questionou.
    Bufei satisfeito, antes de declarar: “Vocês querem beijo e romance, enquanto só quero dormir. Podemos resolver os três coelhos de uma vez só”, olhei para Sophia boquiaberta e logo para o confuso Kevin, quem não entendeu o que aconteceria até eu me aproximar mais e pôr minhas mãos nos lados de seu rosto. “Só dessa vez”, pronunciei-me a ele, “tudo bem? Se quiser, pode fingir que sou outra pessoa se fechar os olhos. Tenho pressa”.
    Não sei se o garoto chegou a me ouvir, mas vi seu olhar passar estranhando para nossos pés e então espiou minha expressão, com a mão tocando uma das minhas – provavelmente para tirá-la – e a boca se abrindo para perguntar algo, quando o beijei. Minha mente, torta na hora, raciocinou que aquela era uma maneira de dar o que ambos queriam. Não sabia quanto a romance, mas, assim que nossos lábios melados se desconectaram, tanto Kevin paralisado como Sophia eufórica pareciam tomates humanos.
   Após aquilo, dei-me de costas e fui calmo ao meu quarto. Não fui impedido de ir engatinhando na cama até meu travesseiro, embora, antes de encaixar meu corpo debaixo do cobertor, achasse ter ouvido alguém correr ao banheiro.

   Ao acordar, achei que tudo não fosse mais do que um sonho: escovei meus dentes, tomei meu banho, troquei minhas roupas e passei um pouco de colônia. Espreguiçava-me ao ir até a mesa da sala com o café da manhã, onde estavam, ao seu redor, meus pais, titia, Sophia e Kevin. Dei “Bom Dia” bem-humorado a todos – minha prima me encarando muito interessada e ele só mastigando pensativo alguma coisa –, vi que faltava meus cereais ali e avisei alto que voltaria da despensa assim que os pegasse para finalmente comer.
   Entrei naquele aposento fechado, percorrendo os caminhos entre as estantes cheias de sacas de alimentos, latas em conserva, brinquedos, embalagens de guloseimas e materiais de higiene. Meus cereais não estavam mais lá, foi o que pensei ao procura-los. Ao invés disso, a única embalagem do estoque se encontrava vazia. “Achei que isso estivesse lacrado ontem”, comentei baixinho, antes de escutar o portão de ferro da despensa ser trancado por dentro.
    No segundo seguinte, senti um chute forte me pegar desprevenido pelas pernas. Xinguei baixo em resposta, sentindo um desequilíbrio doído e mal podendo me aguentar. Por conta disso, acabei caindo de barriga para cima no chão frio. Tentei me erguer, porém uma mão puxou meu pé para perto do outro e logo um peso extra se depositou em cima de minhas pernas.
    Seja quem fosse, era realmente pesado. As luzes das lâmpadas, a metros dos meus olhos, me cegaram por um tempo até que finalmente pude ter uma visão nítida de quem havia me atacado. “Kevin, que diabos você faz em cima de mim?”, fiz uma careta confusa ao vê-lo com uma expressão sombria e séria. “Eu preciso achar meus cereais. Alguém parece ter comido da embalagem e...”

   “O que eu faço aqui, você me pergunta?”, escutei-o ficar irritado, embora risse, “Que seus cereais você procure depois! Faz ideia de quantas horas passei sem dormir por sua causa?!”

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