observações: só tomem cuidado que esse conto tem umas insinuações de cenas indicadas pra maiores de 17 anos, ok?
― Ah, ― ouço Kevin fechar os olhos para não gargalhar, embora o sorriso alegre se pendure no rosto. ― cala essa boca, diabos. Sabe o quanto doí rir?!
― Ah, ― ouço Kevin fechar os olhos para não gargalhar, embora o sorriso alegre se pendure no rosto. ― cala essa boca, diabos. Sabe o quanto doí rir?!
Sei que sou o rapaz de dezoito anos mais
feliz do Brasil nesta sexta-feira de junho, ás duas da tarde e com frio. Não é por
que o Dia dos Namorados é daqui a cinco dias ou por eu ganhar uns pacotes de
bombons de algumas meninas do condomínio onde moro, mas sim por Kevin... estar bem.
―
Não pensei nisso, foi mal. ― sorrio, sentado em uma poltrona azul ao lado do
leito de hospital, acariciando a mão dele por debaixo do cobertor quente. ― Só
estou feliz que não tenha se tornado algo mais sério. Foi bom os médicos terem
cuidado bem de suas costelas. Você ficou aí por dois meses. ― espio o soro
pendurado por um gancho de um cabo de metal.
Isso é um progresso: semanas atrás, ele se
achava direto com a máscara de inalação para aspirar a alguns remédios. Por
conta das pancadas que este cara recebeu, quase comprometeu seus pulmões; pior,
poderia ter acabado com seu coração. E
tudo isso é culpa do pavio curto dele. Se bem que Kevin tem um enorme
histórico em hospitais, a ponto de algumas enfermeiras locais saberem o nome
dele de cor só vendo o rosto. Não sei se isso é bom ou não.
Nós dois somos amigos desde o maternal.
Desde lá, ele já brigava com os outros meninos e acabava se ferindo várias
vezes. Quanto a mim, mantive-me fora de encrencas por ser uma pessoa que
raramente perdia a paciência. Pelas confusões metidas pelo pai incontrolavelmente
alcoólatra e a mãe quase ausente, meus pais não se importavam que meu amigo
ficasse em casa por semanas. Até posso dizer que este carinha passou a vida
mais na minha residência do que exatamente na dele.
Em um belo dia, minha prima carioca – quem
virou a novidade entre as crianças do condomínio – passou uns dias conosco.
Como Kevin se comportava agitado com meninas, acabava a flertando até demais.
Então, vendo minha situação como namorado dele, você pode dizer “Você sentiu
ciúmes?”. Naquela época, não imaginei que nossa relação fosse ir longe como
agora. Tinha treze anos e o considerava meu irmão, mas realmente acreditava que
ele deveria levar as coisas não como uma brincadeira para depois reclamar de
Deus e o mundo quando suas namoradas acabavam o namoro.
Havia outro ponto: eu sabia bem qual tipo de
pessoa ela era e se pode dizer sobre os dois navegarem pelo mesmo pensamento de
curtir a vida sem compromissos. Ainda ciente disso, não evitei meu lado
superprotetor de parente quando Sophia olhou Kevin e comentou sugestivamente “Queria
um pouco de romance nessa cidade. Tudo
parece tão normal demais”.
Para variar, ele sorriu e respondeu “Se você
desejar, gata, a gente pode experimentar cem maneiras diferentes de ir ao
paraíso”.
Nem precisei pensar duas vezes para olhar
feio – “Eles sabem que eu ainda ‘tô’
aqui, sabem?” – os dois e sentenciar sério “Só sob meu cadáver”. Fora isso,
era noite. Não queria dormir sabendo que os dois estavam dando o bote. Desejava
ter meu merecido sono sem preocupações me atormentando.
“Qual é, Bernardo”, ele retrucou, “Sei que
ela é sua prima, mas não mordo não... Só vamos dar umas bitocas” e Kevin passou
o braço pelas costas dela.
“Por isso mesmo que quero vocês dois a um
metro de distância do outro”, cansado, cruzei meus braços observando Sophia me
lançar um misto de tédio e diversão, “Temos que dormir e não quero passar a
noite acordado por culpa de vocês”, massageei meu rosto quando tive que fazer
um ruído preguiçoso.
“Se você se incomoda tanto”, ele rolou os
olhos, irritado. “vai dormir. Não é como eu vá me apaixonar por ela ou que
estejamos nos machucando. Só quero beijar alguém legal” e espiou indiscreto
minha prima, com animação. Ela pareceu
concordar, pois se aninhou no ombro dele e falou “E eu só quero um romance
quente que possa me divertir nesta cidade”.
Aquilo me irritava. Só queria algo acabando
com o clima enjoativo para me trazer paz. Achava-me tão exausto e eles ainda
queriam aquelas coisas que... Aquilo subiu minha cabeça e conclui, não fazendo
nem lógica pra mim mesmo: “Então você só quer beijar e você só quer romance... É isso?”. Kevin me fitou como isso não
fosse já muito óbvio. “Preciso dizer que sim?”, ele me disse irônico. Bastou
para que, com isso e mais um minuto de devaneios, uma ideia brilhasse louca. Acabei
o puxando para perto de mim. “O que significa isso?”, atônito, o cara me
questionou.
Bufei satisfeito, antes de declarar: “Vocês
querem beijo e romance, enquanto só quero dormir. Podemos resolver os três
coelhos de uma vez só”, olhei para Sophia boquiaberta e logo para o confuso
Kevin, quem não entendeu o que aconteceria até eu me aproximar mais e pôr
minhas mãos nos lados de seu rosto. “Só dessa vez”, pronunciei-me a ele, “tudo
bem? Se quiser, pode fingir que sou outra pessoa se fechar os olhos. Tenho pressa”.
Não sei se o garoto chegou a me ouvir, mas
vi seu olhar passar estranhando para nossos pés e então espiou minha expressão,
com a mão tocando uma das minhas – provavelmente para tirá-la – e a boca se
abrindo para perguntar algo, quando o beijei. Minha mente, torta na hora,
raciocinou que aquela era uma maneira de dar o que ambos queriam. Não sabia
quanto a romance, mas, assim que nossos lábios melados se desconectaram, tanto
Kevin paralisado como Sophia eufórica pareciam tomates humanos.
Após aquilo, dei-me de costas e fui calmo ao
meu quarto. Não fui impedido de ir engatinhando na cama até meu travesseiro, embora,
antes de encaixar meu corpo debaixo do cobertor, achasse ter ouvido alguém
correr ao banheiro.
Ao acordar, achei que tudo não fosse mais do
que um sonho: escovei meus dentes, tomei meu banho, troquei minhas roupas e
passei um pouco de colônia. Espreguiçava-me ao ir até a mesa da sala com o café
da manhã, onde estavam, ao seu redor, meus pais, titia, Sophia e Kevin. Dei “Bom
Dia” bem-humorado a todos – minha prima me encarando muito interessada e ele só
mastigando pensativo alguma coisa –, vi que faltava meus cereais ali e avisei
alto que voltaria da despensa assim que os pegasse para finalmente comer.
Entrei naquele aposento fechado, percorrendo
os caminhos entre as estantes cheias de sacas de alimentos, latas em conserva,
brinquedos, embalagens de guloseimas e materiais de higiene. Meus cereais não
estavam mais lá, foi o que pensei ao procura-los. Ao invés disso, a única
embalagem do estoque se encontrava vazia. “Achei que isso estivesse lacrado
ontem”, comentei baixinho, antes de escutar o portão de ferro da despensa ser
trancado por dentro.
No segundo seguinte, senti um chute forte
me pegar desprevenido pelas pernas. Xinguei baixo em resposta, sentindo um desequilíbrio
doído e mal podendo me aguentar. Por conta disso, acabei caindo de barriga para
cima no chão frio. Tentei me erguer, porém uma mão puxou meu pé para perto do
outro e logo um peso extra se depositou em cima de minhas pernas.
Seja quem fosse, era realmente pesado. As
luzes das lâmpadas, a metros dos meus olhos, me cegaram por um tempo até que
finalmente pude ter uma visão nítida de quem havia me atacado. “Kevin, que
diabos você faz em cima de mim?”, fiz uma careta confusa ao vê-lo com uma
expressão sombria e séria. “Eu preciso achar meus cereais. Alguém parece ter
comido da embalagem e...”
“O que eu faço aqui, você me pergunta?”, escutei-o ficar irritado, embora risse, “Que
seus cereais você procure depois! Faz ideia de quantas horas passei sem dormir
por sua causa?!”
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